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sábado, 7 de novembro de 2009

Poesia da semana



E aí, pessoal!!

O poema angolano da semana é de Agostinho Neto, poeta nascido em Caxicane, África, em 1922. Além de poeta era médico e, exerceu a profissão em Angola, Cabo Verde e Portugal. Suas obras: Quatro Poemas de Agostinho Neto, Poemas e Sagrada Esperança, foram traduzidas para várias línguas. O poema "O choro de África", que está aí pra que vocês possam ler e apreciar, nos remete a uma África que chora, a uma África que se ergue e se constitui como nação, buscando a construção da sua própria identidade.

O Choro de África

O
choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nas fogueiras choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas
[as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África
e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

O choro dos séculos
inventado na servidão
em histerias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

O choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no círculo de ferro
da desonesta força
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida
fechada em estreitos cérebros de máquinas de contar
na violência
na violência
na violência
O choro de África é um sintoma

Nós temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos de suas bocas – por nós!
E amor
e os olhos secos


sábado, 17 de outubro de 2009

Poesia Angolana

O poeta e ensaísta, Geraldo Bessa Victor é um dos grandes nomes da poesia angolana. Mestiço, nascido em Luanda em 1917, traduziu em versos a luta e o sofrimento do negro africano. Suas publicações, traduzidas em várias línguas são: Ecos Dispersos, Ao som das marimbas, Debaixo do Céu, Cubata abandonada e Monandengue. Vale a pena conferir e encantar-se com a poesia africana que, ainda hoje é desconhecida por muitos, sempre lembrando que, nós, brasileiros, somos África também.
Colocamos então, dois poemas de Geraldo Bessa Victor para vocês!!

Soneto Ao Mar Africano

Ó grande Mar, que banhas estas plagas
africanas, em ti ouço recados
dum mundo a outro mundo, nos teus brados
de prantos, risos, orações e pragas!

Na dramática voz das tuas vagas
escuto os que, nos séculos passados,
choraram nesse canto dos teus fados,
cantaram nesse choro em que te alagas...

Na tua voz eu ouço o Branco bravo,
que semeou Portugal nestes recantos
africanos, e ainda o Negro escravo

- ao mesmo tempo indômito e servil –
que regou com seu sangue e com seus prantos
a semente fecunda do Brasil!

(Cubata abandonada, 1957)


Eis-Me Navegador

Eis-me navegador. Um sonho abarco.
A Vida é Mar, a Vida é toda um Mar.
E quem tem alma e sabe o que é sonhar
- há-de lançar às águas o seu barco.

Herois – Fernão, Colombo, Gama, Zarco!
Mistério, assombro, - a vaga, a noite, o luar,
o espaço, o vento, a chuva, a nuvem, o ar...
- Adonde a calma, o rumo, o porto, o marco? –

Mas uma força interna me estimula
para que eu vença a onda e o vendaval,
tanto mais quando o vento brame, alula

e o Mar ameaça abrir o hiante seio...
Eu tenho a fé e o sonho de Cabral
em busca do Brasil do meu anseio!

(Debaixo do céu, 1949)